Morris Chang: o engenheiro discreto que transformou Taiwan no epicentro da indústria de chips
Morris Chang não tem o glamour midiático de um Elon Musk ou Bill Gates, mas sua importância é significativa. Aos 94 anos, esse engenheiro chinês nascido em 1931 construiu a TSMCempresa que fabrica 71% dos chips avançados do mundo, de iPhones a GPUs de IA da NVIDIA que tem feito a empresa de Jensen Huang ditar as regras do mercado de inteligência artificial.
Sem holofotes, Chang inventou o modelo de foundry puro: fábricas dedicadas só à produção de chips para empresas que focam no design, como Apple, AMD e NVIDIA, sem competir com os clientes. No segundo trimestre de 2025, esse segmento gerou US$ 30 bilhões em receita para a TSMC, com tecnologias avançadas de 3nm e abaixo respondendo por 75% do total, impulsionadas pela demanda por IA e smartphones. A visão nasceu de seus 25 anos na Texas Instruments, gerenciando linhas globais de semicondutores, até voltar a Taiwan em 1985 para liderar o ITRI.
O engenheiro que fugiu da guerra

Chang enfrentou a infância na China marcada pela invasão japonesa e pela Revolução Comunista de 1949, trocando de escola dez vezes antes dos 18 anos enquanto fugia com a família. Aos 18, emigrou para os EUA, onde se formou em engenharia mecânica em Harvard (1952), fez mestrado (1953) e doutorado (1955) em engenharia elétrica no MIT. Começou a carreira na Sylvania, trabalhando com transistores, e logo migrou para a Texas Instruments (TI), onde subiu de engenheiro júnior a gerente de produtos e, aos 42 anos, vice-presidente de semicondutores.
Na TI, previu em 1976 que semicondutores explodiriam, defendendo produção para terceiros — ideia ignorada pela empresa, que priorizou eletrônicos de consumo e declinou. Aos 54, Taiwan o chamou para liderar o Instituto de Pesquisa Tecnológica Industrial (ITRI). Lá, fundou a TSMC em 1987 com US$ 78 milhões: 48% do governo taiwanês, 28% da Philips (por tecnologia) e o resto de investidores privados.
A ideia que mudou a indústria

Até então, gigantes como Intel faziam design e fabricação. Chang separou os papéis: “Nunca competiremos com clientes”, prometeu, criando espaço para “fabless” como Qualcomm e MediaTek. Fábricas custam US$ 20 bilhões cada; poucas bancam isso sozinhas.
Aposta arriscada vingou. Em 1999, vendas já batiam US$ 1,5 bilhão. Durante a crise de 2008,m Chang, aos 77, demitiu o CEO, retomou o cargo, evitou demissões em massa e investiu bilhões, o mercado voltou e a TSMC ganhou share. Aposentou como CEO em 2005, voltou em 2009, saiu de vez em 2018 como chairman.
Herói de um forte cliente
Jensen Huang, CEO e fundador da NVIDIA, costuma dizer que Morris Chang é “um herói raro, cuja carreira é uma Nona Sinfonia de Beethoven” — um elogio proporcional ao nível de dependência que a NVIDIA tem da TSMC para fabricar tudo, dos chips H100 e B200 de IA às próximas GPUs GeForce RTX 50.
Essa admiração ganhou uma camada extra em 2024, quando os dois jantaram juntos em Taiwan, às vésperas da Computex: Huang saiu do restaurante distribuindo autógrafos e repetindo à imprensa local que a relação com a TSMC é central para o futuro da empresa.


Aos 94 anos, com fortuna estimada em cerca de US$ 6,1 bilhões, Chang usa essa posição de “fabricante dos sonhos” para reforçar um mantra antigo: “a cultura da empresa é a sombra do fundador”defendendo integridade, foco técnico e um orçamento de P&D que gira em torno de 8% da receita anual da TSMC para manter a liderança em processos de produção avançados.
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