iFood, 99Food e Keeta sob ataque no Brasil
UM guerra da entrega no Brasil escalou para um novo patamar, com as principais plataformas do país acusando umas às outras de práticas de espionagem empresarial. iFood, 99Food e Keeta estão envolvidas em uma disputa que saiu do ambiente digital e chegou às delegacias, com acusações de roubo de dados confidenciais, assédio a funcionários e violações contratuais. Em meio a investimentos bilionários anunciados pelas três companhias, o mercado brasileiro de entrega de comida tornou-se palco de uma batalha onde informação privilegiada vale ouro.
O iFood, maior player do setor com 93% de participação no mercado brasileiro, denunciou um esquema sofisticado de espionagem. Segundo Rafael Corrêa, head de comunicação da empresa, consultorias sediadas principalmente na China têm abordado funcionários da companhia através de LinkedIn e e-mail, oferecendo valores que variam de US$ 200 a US$ 1.000 por hora de entrevista, dependendo do cargo ocupado. Convertendo para reais, os valores podem chegar a R$ 5.500 para alto executivos.
“O iFood vê como um ataque coordenado de consultorias, boa parte baseada na Ásia, em busca de informações privilegiadas e confidenciais da empresa via pedidos de entrevistas online”explicou Corrêa. Segundo ele, as perguntas não são sobre o mercado de delivery em geral, mas sobre detalhes específicos da operação do iFood, como cálculo de margem de lucro, precificação e promoções com restaurantes.

Motocicleta da 99Food com mochila térmica amarela estacionada em frente a uma loja em ambiente urbano, ilustrando a operação da plataforma na guerra de delivery.
A empresa brasileira alega ter mapeado mais de 170 pedidos direcionados principalmente a funcionários das equipes comercial e de vendas. Em prints obtidos pela reportagem, é possível ver consultorias solicitando informações sobre número de usuários, lógica de precificação, planos de investimento mencionados pelo CEO Diego Barreto, e até detalhes sobre o Ailo, assistente de inteligência artificial da plataforma.
O iFood também afirma que está enfrentando quebras de contrato de non-compete, cláusula que impede ex-funcionários de trabalharem em empresas concorrentes por determinado período. A empresa inclusive notificou extrajudicialmente a 99Food em junho, acusando a concorrente de atrair colaboradores que possuíam esse tipo de restrição contratual. Segundo o executivo do iFood, a chinesa estaria enviando mensagens pelo LinkedIn afirmando que esse tipo de cláusula não seria um problema.
“O iFood tem, sim, investigações policiais decorrentes de dados que foram subtraídos por ex-funcionários. Estão sob segredo de justiça. E temos processos na esfera trabalhista de funcionários que quebraram acordo de non-compete com a empresa e hoje estariam trabalhando em empresas concorrentes”revelou Corrêa.
99Food também denuncia espionagem
Do outro lado da guerra do delivery, a 99Food também se diz vítima de ações semelhantes. A empresa, que retornou ao mercado brasileiro em abril de 2025 após uma saída em 2023, afirma ter encontrado indícios de comprometimento de informações confidenciais, como planos de expansão, datas de lançamento em novas cidades e estratégias comerciais.


Entregador da Keeta com uniforme amarelo segurando sacola e smartphone, representando a entrada da plataforma no mercado brasileiro e os ataques relataram pela empresa.
Em comunicado divulgado em outubro de 2025, a 99 relatou que seus funcionários estariam recebendo abordagens de supostas consultorias oferecendo valores entre US$ 200 e US$ 1.000 em simulações de pesquisas de mercado que buscavam informações sigilosas. A plataforma também denunciou o furto de notebooks corporativos pertencentes a pessoas ligadas diretamente às lideranças da 99 e da 99Food.
“Enquanto a 99 revoluciona um mercado há muito dominado por práticas que prejudicam restaurantes, entregadores e consumidores, acreditamos haver indícios que apontam para uma campanha para comprometer nossas operações: assédio para obtenção de dados, furtos de notebooks, perseguições e tentativas diárias de acesso não autorizado”, afirmou a empresa em nota.
Keeta e investigações policiais
A mais recente entrante no mercado brasileiro, a Keeta, também relatou estar sob ataque. A plataforma da gigante chinesa Meituan, que chegou ao Brasil em outubro de 2025, informou que a Polícia Civil está investigando ataques coordenados contra a companhia e restaurantes parceiros em Santos, cidade onde iniciou suas operações.
Segundo a Keeta, após seu lançamento na cidade litorânea, pelo menos oito restaurantes foram abordados por pessoas que se passavam por funcionários da empresa, apresentando credenciais falsas. O objetivo seria obter dados sensíveis dos estabelecimentos, como informações sobre pedidos, dados financeiros, métodos de pagamento dos consumidores, práticas de remuneração de entregadores e modelos de contratação.
Em nota, a Keeta afirmou que “acredita em um mercado aberto e justo” e que está “profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais”. A empresa não comentou diretamente sobre as acusações de quebra de contratos de non-compete, mas ressaltou que “atua de acordo com todas as leis e requisitos locais” no recrutamento de talentos.
A plataforma chinesa anunciou um compromisso de R$ 5,6 bilhões para o Brasil em cinco anos. Até o fim de 2025, a Keeta já contava com mais de 27 mil restaurantes cadastrados na Grande São Paulo e uma rede de 98.200 entregadores parceiros na capital paulista.
A Rappi, aplicativo colombiano presente no Brasil desde 2017, não quis se manifestar sobre os assuntos tratados na reportagem. A empresa anunciou um aporte de R$ 1,4 bilhão até 2028, com expectativa de estar presente em mais de 300 municípios brasileiros até lá.
Vale lembrar que tanto a 99Food quanto a Keeta enfrentaram problemas no início de suas operações no Brasil. A 99Food foi alvo de reclamações de donos de restaurantes que alegaram prejuízos após aderirem à plataforma, enquanto a estreia da Keeta em Santos e São Vicente motivou protestos de entregadores por conta de pagamentos abaixo do esperado e falta de transparência.
A guerra do delivery no Brasil, que já movimenta bilhões em investimentos, agora também se desenrola nas delegacias e tribunais, com acusações mútuas de espionagem empresarial e práticas anticompetitivas.
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