Steve Jobs teve que pedir dinheiro ao Bill Gates para salvar a Apple da falência; a história do investimento que mudou os rumos do mundo
Em agosto de 1997, a Microsoft fez um investimento de US$ 150 milhões para a Maçã. Foi o acordo que salvou a empresa de pedir concordata, encerrou uma guerra judicial sobre patentes e colocou Bill Gates no telão da maior conferência de tecnologia do mundo enquanto a plateia vaiava. Jobs precisava do dinheiro, enquanto Gates precisava de outra coisa, e os dois sabiam exatamente o que estavam fazendo.
90 dias antes do fim
Naquele momento, a Apple tinha caixa para operar por, no máximo, 90 dias. Não é metáfora: era a estimativa real de sobrevivência da empresa que, uma década antes, havia criado a interface gráfica que a própria Microsoft copiou. Gil Amelio, o CEO que tentou reorganizar a Apple entre 1996 e 1997 após anos de gestão sem direção, havia acumulado prejuízo de US$ 1 bilhão no seu único ano completo no cargo. Antes dele, Michael Spindler, outro executivo sem visão de produto, tinha tentado vender a Apple para Sol, IBM e HP. Nenhuma topou.
A empresa que em 1984 havia apresentado o Macintosh com um comercial de Super Bowl que entrou para a história da publicidade estava, treze anos depois, sem comprador, sem produto relevante e sem fôlego financeiro.
Jobs, estava fora da Apple desde 1985. Durante esses anos longe da empresa, construiu a Próximoque tinha como destaque o computador PróximoCubeque custava US$ 6.500 e que Bill Gates desprezou publicamente com palavras que a imprensa preferiu suavizar, mas que na versão original foram “eu mijaria naquilo”. A Apple comprou a NeXT por US$ 400 milhões em 1996, oficialmente pela tecnologia do sistema operacional (Próximo passo). Na prática, serviu para trazer Jobs de volta pra casa. Amelio assinou o cheque sem perceber que estava assinando a própria demissão.

Durante o período da NeXT, Steve Jobs e Bill Gates chegaram a ter um confronto intenso. Gates se recusou a produzir softwares para o computador da NeXT. Sua justificativa para ele foi direta: “a máquina era uma bosta”.
Quando Amelio comunicou a Gates que Jobs estava de volta, a reação do confundador da Microsoft foi de frustração, com uma razão bem específica. Cogitava-se na época a possibilidade do Mac utilizar o Windows NTassim como a arquitetura x86 da Intel. Isso significava que Gates poderia expandir seu esquema de licenciamento, dessa vez com um nome de peso: a Apple. No entanto, com o retorno de Jobs, esses planos foram por água abaixo.
No dia 20 de dezembro de 1996, foi feito o anúncio oficial: após 11 anos, Steve Jobs estava de volta à Apple, inicialmente como consultor. Esse retorno deu início a uma nova guerra de egos entre Jobs e Amelio. Dessa vez, Jobs retornava em grande estilo, e quem seria “chutado” seria Amelio.
A estratégia da Microsoft
Em 1997, a Microsoft respondia a um processo antitruste histórico movido pelo Departamento de Justiça dos EUA, acusada de usar o Windows para eliminar concorrentes no mercado de browsers, especialmente a Netscape. O argumento central do governo era simples: a Microsoft tinha poder de monopólio. Manter a Apple viva, e visível, era a resposta mais eficiente a essa acusação. Uma Apple morta significava um mercado de tecnologia com um único grande player, a manutenção da empresa, mesmo enfraquecida, era a prova jurídica de que a competição ainda existia.
Steve Ballmer, então vice-presidente executivo e braço direito de Gates na Microsoft, chamou o investimento de “a coisa mais louca que a Microsoft já fez” em entrevista à Bloomberg em 2015. A loucura, porém, foi calculada: a Microsoft vendeu suas ações entre 2001 e 2003 e embolsou US$ 550 milhões, lucro de 267% sobre os US$ 150 milhões originais. É importante destacar que, em 1997, a Apple ainda tinha os computadores como seu grande produto. A revolução que a empresa causaria com o iPod, iPhone e iPad estava distante do horizonte de Jobs e sua equipe. O foco, naquele momento, era simplesmente encontrar um “galho” para se agarrar e sobreviver no mercado.
O dia do momento emblemático

No dia 6 de agosto de 1997, na MacWorld em Boston, Jobs subiu ao palco e projetou no telão o rosto de Bill Gates via satélite. A plateia vaiou com força. Jobs não recuou: “Precisamos abrir mão da ideia de que, para a Apple vencer, a Microsoft precisa perder.”
Era uma frase necessária, mas com muito impacto pessoal. Jobs havia passado anos construindo a narrativa de que a Microsoft empobrecia o mercado de tecnologia, que seus produtos eram funcionais mas sem alma, fabricados em série sem nenhum compromisso com a experiência do usuário. Dizer aquilo no palco da MacWorld era engolir tudo isso em público.
O acordo tinha quatro pilares:
- Investimento de US$ 150 milhões em ações preferenciais sem direito a voto
- Compromisso da Microsoft de manter o Office no Mac por cinco anos
- Internet Explorer como browser padrão nos Macs (vigência até 2003, quando a Apple lançou o Safari)
- Encerramento do processo por violação de patentes de interface.
Segundo relembrou Jobs, em sua biografia escrita por Walter Isaacson, ele disse o seguinte a Gates durante o telefonema que foi o primeiro contato que resultaria no acordo:


“Preciso de ajuda”. A Microsoft estava sempre passando por cima das patentes da Apple. Eu disse que, se mantivéssemos nossas ações judiciais, em poucos anos poderíamos ganhar uma ação de 1 bilhão de dólares por patentes. “Você sabe disso, eu sei disso. Mas a Apple não sobreviverá tanto tempo se continuarmos em guerra. Sei disso. Portanto, vamos resolver isso logo. Tudo que preciso é o compromisso de que a Microsoft continuará desenvolvendo para o Mac, e um investimento da Microsoft na Apple, para que a Microsoft tenha algo a perder ou a ganhar com o nosso êxito.”
As negociações avançaram rapidamente e foram seladas em outro telefonema de Jobs para Gates, horas antes da apresentação na MacWorld. Jobs disse: “Bill, obrigado por seu apoio a esta empresa. Acho que, graças a isso, o mundo ficou melhor”.
A Microsoft tinha que segurar as ações por pelo menos três anos. Na prática, isso criou um período de respiro artificial. Enquanto a Microsoft não podia vender, o mercado interpretou o investimento como voto de confiança real e duradouro. O preço das ações da Apple subiu no mesmo dia do anúncio, o que por si só já valia parte do acordo.
O dia em que Bill Gates e Steve Jobs se conheceram – confira essa história
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